domingo, 16 de fevereiro de 2014

A sutileza da vida



Emanava do mar o amor. Banhado de sol refletido, as águas brilhavam geladas no acordar da manhã. E ela, levantava-se ainda cheia de sonolência, e seus dois olhos castanhos se punham  na janela olhando as ondas desejar seus pés. Ficava a observar aquele pedaço do oceano que poetas costumavam cantar, a beira-mar. Da cama bagunçada ela saia para preparar a comida do seu companheiro que dormia e acordava pensando no trabalho do dia seguinte, para comprar uma casa maior, para comprar um transporte legal, para comprar outra coisa para si. A mulher, que escondia mechas cumpridas sob seu cocó no pé da cabeça acompanhava o marido no café até terminarem, ele levantar-se e dar um beijo na bochecha dela, despedindo-se e seguindo para o trabalho, de onde só chegaria pela noite.

A noite: o escurecer do céu, para Amana, era uma cerimônia de importância maior que os seres da terra davam a isto. Sim, esta mulher era uma sonhadora solitária. Se conformava com seu conto de fadas torto e até na hora de amar fantasiava com cheiro de velas queimadas e sua pele branca tocada por pétalas vermelhas. Todas a admiravam pelo amor calmo que vivia. Ela deixava a terra afundar seus pés e sobre eles enterrar toda a areia do conformismo. Mas Amana era do céu, criatura que andava parecendo flutuar. Ela, sonhadora, se sentia incompleta. Sentia como se esperasse algo que ainda não havia chegado. E seu marido sempre puxava seus pés ao chão frio, dizendo àquela 'criatura melosa' que a vida era dura e que era preciso ralar muito para ser alguém. Mas Amana ficava a se perguntar se já não podia ser alguém nesse jogo de viver. Olhando para as estrelas do céu, ela foi pensando se de tão grande o universo, mais além e bem maior que os pontos luminosos que ela alcançava no céu escuro, haviam também possibilidades numerosas de ser. 'O que era ser?', ela ficava a se indagar.

 Quando descobriu estar doente e com pouco tempo de vida, a moça que emanava amor descobriu também outra coisa importante: a vida não espera até que a gente faça um curso intensivo e decida vivê-la. Ela passa. E você vai com ela. Onde você e ela tem dia pra acabar. Na maioria das vezes, ao contrário do que aconteceu com a moça, você não sabe se terá um mês ou um dia a mais. E aquela pessoa a quem se ama então? Essa coisa de vida é um tanto que traiçoeira, as pessoas esperam tanto, fazem tanto  e até pisam em outros para lá na frente ter um lugar, que em um dia o único lugar que conseguem estar é embaixo da terra. Ela começou a lembrar de algumas coisas típicas do viver de alguém, as coisas mais gostosas: sentir em sua pele cair um monte de pingos de água vindas do céu, dançar juntinho e com a cabeça no ombro de quem se ama (seus pés chegavam a levitar), o sabor do sorvete de manga extremamente gelado que lhe refrescava os dias mais quentes, as conversas jogadas fora com sua amiga fiel, as bandeirinhas penduradas e o cheiro de milho assando em Junho, e tantas outras coisas que a faziam se sentir mais alguém que nunca. Já dizia o poeta: 'difícil é ser tão simples!'.

Amana agora deixava seus cabelos soltos e ia embora pra todo canto que pudesse lhe fazer sorrir. Ela tinha urgência em saber ser alguém em cada dia que vivia. Ao levantar, ao meio dia, ou quando a lua se exibia, única e magnífica naquele céu de São José da Coroa Grande. A mulher sonhadora, que já achava graça na flor que nascia e no barulho do bar chegando à terra, agora tinha certeza que o conformismo e a superficialidade dos dias iam de encontro ao dia em que essa história de viver tem fim, pois na agenda de Deus este é um dia ao qual não se tem acesso. Certa noite, quando o marido daquela moça chegou em casa, Amana dormia como um anjo no tapete da sala e o disco daquele grande artista estava tocando na sua vitrola. Ele deitou-se do lado da amada e pensou como seria sua vida sem Amana para encher de beijos carinhosos quando chegava cansado, sem os olhos intensos dela o olhando com ternura, sem o jeito bobo daquela moça falando sobre os filhos que teriam quando ele enfim quisesse tê-los. O marido da sonhadora e triste Amana ficou a lembrar das coisas que deixava para mais tarde para mais tarde ser 'alguém na vida'. 'E se minha vida acabasse amanhã?', começou a pensar...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Cedrim e suas análises existenciais - Parte Final

Line e sua super franja versão 2010

 'ah! Ora! Se não sou eu, quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão...'
O velho e o moço - Los Hermanos

Então, chegou a hora de concluir toda essa reflexão que tá passando na minha cabeça ultimamente. Acabei por ver que o que tá acontecendo é que eu estou encontrando o equilíbrio das coisas. E isso não é ruim. Me dei conta de que a Line de agora tá mais pra adulta que pra menina. Aquela menina que vivia em nuvens foi um pouquinho pra mais longe, e é hora da mulher, da adulta firmar seus pés números 39 no chão e se deliciar com as várias texturas em que sua sola do pé tocar. Tocar o chão também pode ser legal. Disso - ser legal ou não ter os pés no chão - só depende de como a gente lida. Houve uma época aí em que me sentia tão confiante, corajosa que só. Até chegava a dizer que numa situação desagradável ou arriscada eu iria enfrentá-la com toda tranquilidade, e que eu a controlaria numa boa, só dependia do equilíbrio do meu estado de espírito. Essa segurança toda evaporou um pouquinho sem eu nem ter percebido, em 2012.  Foi tanta coisa pra se resolver de uma vez só, só Deus sabe o quanto briguei contra mim mesmo por botar minha razão e minha emoção frente a frente.
Mas, porém, no entanto, de todas as lições de 2012 quero levar comigo só o que é necessário. Não digo que tô levando só coisas boas, já que o ruim trago como lição e para eu olhar para tudo e assim dar mais valor ao certo, as bençãos, e a tudo que rola de massa sem eu a menos merecer muito, o que me faz chegar mais uma vez a conclusão que todos nós somos muitas vezes bobos ingratos que só sabem reclamar e não vemos que o que acontece de positivo é bem maior - e melhor - que algumas coisas ruins que vivenciamos. Pois então, se você está bem consigo mesmo, um estado emocional saudável, se está confiante no que você é e sobre suas decisões você estará muito bem munido pra enfrentar qualquer guerra lá fora. É batata! Não tem muito segredo. Faça sua parte e confie em si que toda situação será uma situação mais tranquila de se resolver, sem aquele peso nas costas ou a ansiedade de todas as horas. Saber dividir o que realmente importa e abstrair de verdade o desnecessário também é válido. Tenho uma irmã de 15 anos que me surpreende e que me ensina muito sobre isso. Ela simplesmente parece não deixar com que palavras desnecessárias entrem em seus ouvidos. E assim fica lá na dela, sem muita reação para essas palavras, sem cometer erros que a gente muitas vezes comete por responder ofensas ou atitudes de alguém que nos machuca, e acabamos falando ou fazendo o que nos faz ficar mais mal ainda.

'Deixo tudo assim, não me importo em ver  a idade em mim. Ouço o que convém, eu gosto é do gasto.'

Me sinto feliz. Os exercícios de não julgar antes de conhecer, de ser indiferente ao que e a quem não me acrescenta e só prejudica, e a sempre pensar nas outras possibilidades de enxergar as coisas estão em mim de um jeito bem mais forte. E outra coisa: a partir de agora gente que só critica e não acrescenta não tem suas palavras levadas a sério por mim. Tem gente que pode até ter a intenção de fazer o bem, ou nos quer bem, mas na boa, a boquinha só funciona pra repreender, pra dizer como você deve agir ou analisar sua personalidade e suas atitudes. Tô cheia disso. Não das pessoas que fazem isso, mas dessas atitudes delas. Desde criança conheço e já presenciei várias situações em que olhavam torto ou inventavam historinhas maldosas em relação a certo alguém só por acharem que ele tinha ou era algo que não coincidiam com o que queriam ou gostavam. Cada um tem seu jeito e é como pode ou quer ser. Ninguém, mas ninguém mesmo tem o direito de taxar alguém ou dizer quem são. Conhece bem a pessoa para entender porque se comporta ou está assim? Não? Isso basta. Não tenho medo de críticas, elas são sempre bem vindas e até solicitadas, mas por pessoas que sabem quem sou e quem sabe também reconhecer o bom, sem o bichinho da maldade na língua. Respeito por CADA ser humano, gente! Bote essa palavra como prioridade: Respeito! 

'quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante...'

Foi quase um desabafo mesmo, pois vai ser assim: 'Nossa, seu cabelo tá horrível! Você engordou, hein? Você não tem juízo!' e agradecerei com um sorrisinho de canto, porém, a depender de quem seja e de como fala, analisarei se absorvo a opinião ou se arremesso mentalmente suas palavras num buraco negro imaginário.

 Ufa! Já falei demais, não foi? Então, deixa eu enfim concluir. Não sou nenhuma coitada, tenho defeitos como todo mundo e pra muitas pessoas é difícil lidar. De um jeito que talvez um dia algum psicanalista possa explicar, mesmo com minha idade, ainda fico pensando no sentido da vida, num tipo de crise existencial. E qual a graça de ser, fazer e viver tanta coisa pra depois simplesmente 'acabar'? Não somos só corpos, pois nosso pensamento, nossa força emocional e nossas energias existem, é fato. E se a matéria vira terra no final, nossa energia vital simplesmente some do espaço? Então o que fazemos na vida é tão supérfluo e automático quanto morrer? 

Muitas vezes sou tão apaixonada por esse mistério que é viver e em observar como alguns detalhes e elementos que fazem parte disso são mágicos, que posso até cantar 'I gotta feelling' mentalmente num ônibus lotadão e tentando me equilibrar num braço só. Equilíbrio... Se tem uma carta coringa, ela é a do equilíbrio... Que 2013 seja um ano de pensamento, atitudes e emoções equilibradas. Que saibamos ter o amuleto invisível da balança imaginária, levando-o pra tudo quanto for lugar e todo dia, e medir o peso das coisas nela. Que eu possa estar mais sensível a enxergar  melhor e mais de perto o que me é vida: pessoas do bem e verdadeiras, a minha espiritualidade, meus erros, manias e defeitos procurando corrigi-los, enxergar as outras possibilidades e enxergar da forma mais apropriada e da forma que me faça ter coragem e força de e para respirar. E que cada dia seja uma pecinha de quebra-cabeça pra que lá no final desse misterioso jogo tudo se complete, e tudo se faça ter valido a pena. Desejo isso para você que lê agora. Afinal, a vida é como um casulo ou não é? Feliz 2013!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Cedrim e suas análises existenciais

A 'doce e boazinha' Line de 2009


Dessa vez o texto vai ser bem mais pessoal e direto. Sinto fome de botar isso pra fora. De alguns dias pra cá venho tentando buscar em pequenas coisas do cotidiano motivos que me fazem me sentir bem, e  pedaços de prova de que o que é positivo supera em muito os aspectos negativos. 2012 foi um ano intenso e transitório mesmo, como se previa. Não só eu, mas ouvi de muita gente que 2012 não foi fácil. Errei pra caramba sem saber a dimensão sobre a qual tudo ia chegar, e aprendi muito sobre culpa, busca por perdão e o que a gente tá na vida pra aprender TODO DIA: superação. Nessas fases assim a gente (re)descobre que o exercício de enxergar ou ir atrás de coisinhas que causam aquele 'puxa, isso é vida!' em cada canto que você olha causa uma sensação inexplicável de paz, arrisco até dizer que nesses processos de recuperação, digamos assim, a gente sente que Deus, o Universo ou a Energia Maior sempre tá conosco. Eu disse SEMPRE! Mas não é verdade que quando algo de muito bom acontece sendo o resultado de turbulências ficamos mais próximos da Presença Divina? 

 O que mais me vem a cabeça quando penso em procurar força pra viver são as pequenas manias ou costumes que foram se esvaindo com o tempo. Costumes bobos mesmo, como lavar e hidratar o rosto antes de dormir ou pegar o caminho mais longo (e mais bonito) na volta pra casa, dormir escutando música. Acho que a medida que fui 'crescendo' fui me colocando mais no automático: acordar de manhã com pressa e sair de casa, chegar a noite cansada, ficar um pouquinho na internet e dormir pra acordar de manhã com pressa e sair de casa, chegar a noite cansada e... por aí vai... Com tanta pressa e coisa matutando na cabeça muito do que tá ao nosso redor passa quase despercebido, né não? Por exemplo: domingo passado, aproveitando que tava sem internet, deitei na cama pra dá uma conferida em um monte de cds novos que havia comprado (há séculos não parava só pra ouvir um cd bom), e ouvindo algumas músicas boas bem do estilo que sempre gostei que percebi que aquela Aline cheia de sensibilidade não tava mais ali. Música sempre me tocou muito. Houveram fases em que só andava com o fone no ouvido, conseguia associar certos acontecimentos às letras e melodias e abstrair sentimentos ruins transformando-os em poesia. Música é uma arte que tem esse poder. Lembro bem do quanto funcionava. 

 'Basta olhar no fundo dos meus olhos
Pra ver que já não sou como era antes
Tudo que eu preciso é de uma chance
De alguns instantes

Sinceramente ainda acredito
Em um destino forte e implacável
E tudo que nós temos pra viver
É muito mais do que sonhamos''

Pois então, fiquei viajando em algumas letras e na melodia de outras e aquilo foi tão bom! Lembrei do quanto me fazia bem, e que precisava o quanto antes resgatar esse hábito, tão simples, não gasta nada e nem prejudica ninguém, e até faz um bem danado. Voltando a falar sobre minha sensibilidade... ultimamente tô observando meu jeito e me vejo tão diferente. Pra bom e pra ruim, tô mais seca, mais fechada, não fazendo muita questão de agradar A ou B. A ou B? a Aline de antes não se referiria a alguém assim. Nunca forcei ou me senti melhor que ninguém por isso, mas escutava tanto que eu era doce, uma fofa, e tudo mais, e com o tempo isso foi diminuindo. Desse tempo pra cá aconteceu cada coisa que só Jesus na causa! E cada coisa dessa me fazia prometer mudar e ser menos ‘boazinha’. Depois de muita queda a gente vira mestre em saber que cada dificuldade promove mudança. Assim foi. Como no fim do poço só há o caminho de volta, o da subida, aprendi a superar cada coisa. Mas nunca, nunca, nunca voltamos de lá como antes. A vida da gente, com o passar do tempo e das experiências, pode nos deixar mais resistentes a tudo. O que a gente tem que buscar é equilíbrio. Botar na balança o que vale a pena levar e o que vale a pena deixar. Pra se defender, às vezes agimos de uma forma que não conduz de verdade com nossa lógica interior, vamos dizer assim. Mas fazer nossa parte e não esperar retribuição tem que ser prioridade, afinal você é a pessoa pela a qual você mais deve se responsabilizar. A velha história de 'no final é você x você mesmo' e bla bla bla: a mais pura verdade.



Tem pessoas mesmo que não me conhecem direito e que eu sei que acham que eu acho uma coisa delas que na verdade não é do meu achar, haha. Entendeu? Assim: aparências enganam demais, e julgar antes de conhecer alguém nunca fez muito parte de mim. Aliás, sempre fui meio abestalhada pra acreditar na bondade das pessoas e fazer amizade. Hoje sou bem menos, claro. Era daquelas crianças que sorriam pra outra na fila do médico, a menina dava língua, e eu ficava toda triste. Tinha mais o hábito de acreditar que todo mundo era bonzinho e que falava ou demonstrava pra mim o que realmente era ou sentia, de coração mesmo, como eu fazia na maioria das vezes. E foi por quebrar a cara de formas tão doloridas que tentei deixar isso pra lá. Hoje o meu lema é ‘se você espera demais há mais chances de se decepcionar, se não espera nada há mais chances de se surpreender’. Por isso é tão bom conhecer as pessoas direito, e sou fanzona disso. Quero este detalhe sendo praticado novamente e com mais segurança de minha parte. Não queria fazer um tipo de retrospectiva. Não foi essa a intenção do começo, mas tá parecendo, né? Então pra o post não ficar cansativo, grandão e pra você não ter preguiça de ler tudo, vou dar uma paradinha por aqui e falo mais sobre essas coisas na segunda parte, ok?